Usado pela 1ª vez para cassação, voto aberto sujeita parlamentares a pressões, diz especialista

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Análise de vetos presidenciais pode prejudicar parlamentares que ousem ir contra o governo 

Kamilla Dourado, do R7, em Brasília

Voto aberto usado por deputados para cassar mandato de Donadon inaugura nova era no Congresso, mas está sujeito a pressõesZeca Ribeiro/28.08.2013/Câmara dos Deputados

A cassação do mandato do deputado Natan Donadon (sem partido-RO) por voto aberto, na última quarta-feira (12), inaugurou uma nova era do Congresso Nacional. Foi a primeira vez que um parlamentar é cassado pelos seus colegas às claras.

A análise de vetos presidenciais — projetos aprovados no Congresso que tiveram artigos “cortados” pela presidente Dilma Rousseff — também passou a ser aberta desde novembro de 2013, quando a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do voto aberto foi promulgada.

Desde o fim do ano passado, o Executivo pode saber quem votou com ele e até identificar “possíveis traidores”.

Com as votações de temas polêmicos às claras, daqui pra frente, os parlamentares deverão ser mais cuidadosos com suas atitudes, avalia o cientista político Luciano Dias. Para o professor, as consequências vão ser sentidas ao longo do tempo.

— Voto aberto significa agora que cada decisão do Congresso vai pesar muito com a opinião pública e com o Executivo. Quer dizer: as decisões em voto aberto vão estar muito mais sujeitas a pressões.

O voto aberto para a cassação de parlamentares é defendido quase que por unanimidade entre os congressistas, mas o choque de interesses com o governo é uma preocupação dos parlamentares, que temem ficar à mercê do Executivo no caso de derrubada de vetos presidenciais.

O deputado José Begston (PTB-PA) acredita que, independentemente de ser oposição ou base ou de quem esteja no governo, quebrar o sigilo do voto, nesses casos, pode comprometer a relação dos parlamentares com o Executivo.

— Acho que, nesse ponto, a Câmara exagerou e não deveria ter quebrado o voto secreto e eu passo a duvidar que possamos derrubar vetos presidenciais com o voto aberto, tendo o governo uma maioria muito folgada na Câmara Federal.

O cientista político da UnB (Universidade de Brasília) Paulo Kramer concorda que as consequências do voto aberto para a apreciação de vetos podem ser desastrosas.

— Nesse caso, o voto aberto pode transformar o Legislativo em instrumento do Executivo. Os parlamentares ficam sob a pressão. As pessoas têm que entender que nem todo voto aberto é bom para a democracia.

Até agora, o governo tem saído vencedor nas análises dos vetos e sua vontade tem sido respeitada pelos congressistas nas duas apreciações de vetos que ocorreram em 2013. A primeira prova de fogo do governo vai ocorrer na próxima terça-feira (18), quando os parlamentares se reúnem para apreciar mais quatro vetos.

Para o líder do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), a palavra de ordem é cautela.

— Nós não podemos, só porque nós não perdemos nenhuma votação de veto até aqui, imaginar que será sempre assim. Então, merece atenção a criação de novos municípios. Isso, em dado momento, ficou muito popular tanto na Câmara quanto no Senado. Eu, de antemão, antecipo que vamos tomar cuidado com todos os vetos.

A polêmica gira em torno do veto que resultou na rejeição integral de projeto que facilitava a criação de municípios. A proposta possibilitaria a criação de aproximadamente 400 novas cidades.

Para Dilma, o projeto contraria o interesse público porque “o crescimento de despesas não será acompanhado por receitas equivalentes, o que impactará negativamente a sustentabilidade fiscal e a estabilidade macroeconômica”.

O voto fechado ainda continua valendo para outros 11 casos, como escolha da Mesa Diretora e indicação de autoridades, como embaixadores e ministros. A proposta inicial, que partiu da Câmara, extinguia o voto secreto em todas as circunstâncias, mas o texto foi modificado pelos senadores.

Quando o voto parlamentar ainda pode ser secreto:

1 — Eleição da mesa diretora do Senado e da Câmara;

2 — Escolha de ministros do Tribunal de Contas da União;

3 — Eleição de presidente e diretores do Banco Central;

4 — Exoneração do procurador-geral da República;

5 — Escolha de chefes de missão diplomática;

6 — Autorizar operações externas de natureza financeira;

7 — Fixar limite para a dívida pública;

8 — Estabelecer limites e condições para a concessão de garantia da União em operações de crédito externo e interno;

9 — Definir limites e condições para o montante da dívida mobiliária dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios;

10 — Suspender a execução, no todo ou em parte, de lei declarada inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal;    

11 — Dispor sobre criação de cargos públicos.

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